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A culpa é do Papa Francisco
27 de janeiro de 2017

 

A Pastoral Social da Paróquia de São Pedro do Prior Velho organizou no passado dia 27 de janeiro um serão de testemunhos sobre os refugiados.

Desanonimizar. Deixar de ser anónimos. Dar nomes e rostos aqueles que estão refugiados. Foi assim que João Delicado descreveu a importância fundamental do seu trabalho no campo de refugiados em Alepo.

O João, em parceria com a Rita Sacramento Monteiro, descreveram-nos as suas experiências, tão distintas entre si, mas tão idênticas na paixão com que foram vividas e na opção determinante pelo outro, que somos nós, cada um de nós e dos que estão do nosso lado direito e esquerdo, como opção de vida.
Os testemunhos da Rita e do João foram descomprometidos e descomplexados. Foram genuínos e saudosos. Foram tão humanos e sinceros que nos levaram, com eles, na mesma viagem que fizeram, num vislumbre sincero do antes, após e depois que viveram no voluntariado junto dos refugiados.
O que mais me impressionou foram os nomes. Os nomes das pessoas com quem se cruzaram, que fizeram sempre questão de referir. As expressões e as expectativas tão concretas, tão normais, tão iguais a nós, das pessoas que estão nestes campos aos milhares. De facto, não existe um “eles” e um “nós”, naquilo que é o mais essencial.
O que mais me tocou foi, de facto, esta desanonimização que no início referia. O João e a Rita deram-nos uma visão que nos tirou do conforto que os chavões e as categorias nos trazem: Tiram-nos dos "refugiados" para nos falarem das pessoas, dos nomes, das experiências concretas. Tiraram-nos dos "campos de refugiados" para nos falarem das tendas em que as pessoas dormem e as quais as crianças sobem por traquinice, e da água fria na qual tem que tomar banho no inverno. Tiraram-nos da desculpabilização que muitas vezes encontramos nas generalizações e no medo, para nos falarem de pessoas que sentiram os piores medos, que viram as piores coisas, e encontraram uma forma de não permitir que seja esse medo e a revolta aquilo que os define, mas sim a esperança e o sorriso.
E nós? Vamos ser nós que vamos deixar que seja o medo a definir nos enquanto seres humanos?

A Rita e o João deixaram-nos com muitas interrogações. Interrogações que, depois de conhecer as suas estórias e a história daqueles que fizeram uma parte tão querida dessa estória, não conseguimos não colocar a nós próprios. E se fosse eu? E se fosse comigo? E se fosse com as pessoas que eu amo? E se fosse Jesus Cristo? Jesus não foi, também ele no seu tempo, um refugiado, um sem chão, num mundo que estava demasiado indiferente aos desafios que a sua mensagem trazia? Numa civilização que estava demasiado acomodada e muito amedrontada com a diferença?

Os refugiados estão refugiados, não são refugiados. Guardo particularmente esta frase da Rita, que a dizia com os olhos brilhantes. Os refugiados são pessoas! São Saras e Nunos e Anas e Marias e Manuéis e Joões e Ritas. Talvez com nomes que soam ligeiramente diferente mas são-no! Talvez com culturas, hábitos, gostos, religiões diferentes mas são-no! De certeza pessoas boas e pessoas más, como todos nós, mas são-no! São pessoas únicas, como cada um de nós, aos olhos de Deus!
São a Sara, o Nuno, a Ana, a Rita, o João, a Maria, todas as Marias, todos os Maneis que, como nós, querem ser acolhidos, querem paz, querem viver e dormir sem acordar sobressaltados a meio da noite com o som da morte e da destruição!
Querem ser amados! Querem amar! Que foi o único mandamento que Jesus nos ensinou!

E hoje mais uma Sara chega a um campo de refugiados sem condições e sem saber como vai ser a sua vida. Porque teve que fugir de uma guerra que não pediu. Que não lutou. Que não é dela! E não sabe nem quando nem se vai ser acolhida, se vai ter oportunidade de continuar a fazer o mínimo que lhe devia ser garantido pela sua condição humana, que é viver dignamente. E mais um Nuno, uma Maria e um Manuel, exatamente iguais a todos os Nunos e Marias e Manueis que conhecemos, vão morrer no mar.
A grande questão aqui é: O que é que nos vai definir como seres humanos? Qual é que vai ser a nossa decisão? Pela indiferença e a rejeição do medo ou pelo amor?
O que nos vai definir enquanto Cristãos no Mundo? Enquanto reflexos de Cristo na Humanidade - porque é isso que estamos a dizer que somos ou, pelo menos queremos ser, quando nos apelidamos de cristãos- A hipocrisia ou a verdade?
Pessoalmente, sinto me grata pelas interrogações, dúvidas e reflexão que a generosidade da partilha do João e da Rita despertaram em mim.
E fico muito feliz por cruzar a vida com pessoas que tem a ousadia de responder com disponibilidade, serviço, gratidão e amor aos desafios que Deus coloca nas nossas vidas.
Obrigada!

Sara Miguéns

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